sexta-feira, setembro 15, 2006

Eles.

Tenho 6 anos e estou cansada.
Chega a hora de ir dormir, deito.me.
Recebo aquele beijo de boa noite que me acalma; que me faz sonhar descansadamente; que afasta tudo aquilo que me assusta e me deixa aquela paz de espirito de uma menina da minha idade.
Adormeço.
Sonho.
Sou interrompida.
É ela, ela que grita comigo, que me perturba o sono, que me faz chorar. Manda-a embora, fá-la parar, por favor.
Abres a porta e, de imediato, te aproximas de mim, envolvendo.me nos teus braços com aquela ternura eterna, afagas.me com carinho e fazes com que ela se vá embora. As tuas palavras, a tua voz calma e serena que sussura no meu ouvido: 'É só a trovoada. Eu estou aqui, não te preocupes.'
Aconchegas-me, eu adormeço.

Tenho 16 anos.
Chega a hora de ir dormir, deito.me, mas não adormeço.
Lembro.me de quando sossegava com um simples beijo, e tenho saudades de quando não sabia nada, aqueles tempos em que não havia mal nem complicação em nada. Tudo o que eu tocava era mágico. O que não era, passava a ser.
Agora existe complicação, e a maldade existe sim... Numa quantidade que eu nunca imaginara naquela altura; Hoje existe o poder de magoar as pessoas e de as desprezar ao máximo, existe interesse, e a palavra 'respeito' não consta no vocabulário de ninguém.
Hoje continuo a ter medo, não dela, mas sim deles, e do que eles se vão tornando.
Cansaço.
Tu beijas.me.
'Eles não sentem. Eu estou aqui, não te preocupes.'